segunda-feira, 29 de abril de 2013

O Velho Violino

  Era uma sala bem iluminada, com decoração aconchegante e pessoas sofisticadas circulando entre objetos raros e caros. Várias cadeiras cuidadosamente arrumadas em filas, prontas para o grande leilão que estava para começar. 


Esquecido em um canto, entre quadros e porcelanas, descansava um velho violino. Com a pintura mostrando sinais de uso e seu estojo revelando anos de viagens pelo mundo, o antigo instrumento era ignorado por todos. Todos, menos um senhor de cabelos bem brancos, barba cuidadosamente aparada e terno elegante, que observava aquele objeto com um brilho maroto nos olhos.
 
Teve início o grande leilão. Lances milionários eram lançados ao ar com a facilidade que as grandes fortunas permitiam. Objetos do desejo de muitos eram arrebatados pelo dinheiro de poucos. Lances vinham, lances iam, chegara a vez do violino.
 
Apesar dos esforços do leiloeiro, ninguém se interessava por um velho instrumento que parecia ter pouco valor de revenda, muito menos serviria como decoração. Todos continuavam desprezando aquilo que, para eles, era apenas um objeto qualquer. Todos, menos o senhor de cabelos bem brancos, barba cuidadosamente aparada e terno elegante.
 
Calmamente, ele pediu licença para experimentar o violino, tocá-lo, “só para tirar uma última dúvida” dizia. Então, num gesto reverente e suave, tomou o objeto em uma das mãos, o arco em outra e iniciou uma doce melodia. O que antes era um simples objeto revelou-se pura magia. Aquele violino, tocado pelas mãos de um mestre, passara rapidamente da posição de desprezado para a de objeto de desejo. Nas mãos daquele senhor, libertara seu potencial e encantava a todos com notas de fantasia.
Todos passaram a querer o velho violino, todos desejavam agora possui-lo. Todos, e também o velho senhor, que não queria nenhum objeto aquela noite, apenas o violino de seus sonhos, aquele que habitara seu coração durante uma vida inteira de concertos e grandes espetáculos, aquele Stradivarius “perdido”, que aparecera jogado em um canto de uma sala de leilão. O lance mais alto naquele dia foi o dele, pois, naquele leilão, onde as pessoas compravam objetos, ele estava comprando seu próprio sonho.
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Por que tratamos nossos talentos como este velho violino? Por que esperamos uma vida para que alguém, um dia, acredite em nosso potencial e desperte nosso talento?
Seja seu próprio senhor de cabelos bem brancos, barba cuidadosamente aparada e terno elegante. Antes que seja tarde, toque os velhos violinos que você guarda nos cantos escuros de seu coração. Nunca espere que alguém compre seu sonho, você é que deve dar o lance mais alto no leilão diário de sua vida.

Fonte: Breno Isernhagen - www.semmaisdesculpas.com.br

quarta-feira, 17 de abril de 2013

A Teia


Material -Barbante
(ideal para primeiro dia de aula)
1 novelo grande de barbante

Execução
Coloque na lousa algumas sugestões de perguntas pessoais, tais como:
idade
o que faz além da escola
o que quer fazer no futuro
passatempo predileto
esporte favorito
E tudo o mais que você deseja saber ou ache importante na primeira aula.
Entregue o novelo de barbante a um aluno, diga que terá que segurar a ponta do barbante e jogar o novelo para o aluno para quem vai fazer perguntas.
O aluno segura na ponta do novelo (que mantém o tempo todo em sua mão) e joga para o segundo aluno, faz as perguntas sugeridas e então o aluno que respondeu segura na parte do barbante e joga o novelo para o próximo aluno, que deverá fazer o mesmo.
Ao final, haverá uma enorme “teia”, os alunos riem muito, se divertem e por vezes têm que ajudar para que o novelo chegue ao aluno que responderá as perguntas.
Sugestões e objetivos
Em aulas de idiomas as perguntas podem ser no idioma ensinado e servirão como uma revisão.
Após o jogo, já com a teia montada, pergunte aos alunos:
Seria fácil fazer essa teia sem a ajuda dos outros?
Foi necessária a ajuda de todos para que se formasse?
A colaboração é necessária para se construir alguma coisa?
Saber mais sobre os outros também promove uma “ligação” entre as pessoas?
Até que ponto nos preocupamos com o outro que está na outra ponta do barbante?
O que podemos dizer para essa pessoa?
Que ligações eu tenho com essa pessoa além do barbante?
O que temos em comum?
Também pode-se perguntar (para alunos mais maduros) o que acharam da brincadeira e o que ela lhes sugere.

Sua Joia Mais Preciosa

  A vida é feita de decisões. 
O que nos torna humanos é poder tomar estas decisões sem saber de todos os fatos, sem ter todas as cartas nas mãos.
O que nos possibilita isto é uma bênção, uma dádiva que nos manteve vivos nos momentos mais difíceis de nossa história: fé.
Pelo menos uma vez na vida, todos nós seremos expostos a situações em que não existirá nenhuma opção agradável a ser escolhida. Momentos nos quais nosso coração ficará apertado, angustiado, onde teremos vontade de gritar para os céus e perguntar “por que eu?”.
Existem situações que só farão sentido quando muitos anos tiverem se passado. Outras jamais farão sentido algum. Talvez elas estejam ali para te ensinar humildade, talvez para despertar sua coragem, com certeza para forjar seu caráter, mas acima de tudo, os desafios em sua vida estarão ali para testar sua fé.
A vida tem mecanismos que estão além de nossa compreensão. Se quisermos achar uma explicação para tudo, colheremos apenas angústias e decepções.
Chegarão momentos em que você terá que se atirar no escuro, confiando que algo maior vai cuidar de ti. Momentos em que você não saberá o que te espera, nos quais sua única companheira confiável será uma prece.
Quando a vida quiser tomar suas esperanças, proteja na fortaleza de seu caráter a mais preciosa de todas as jóias: a sua fé, a sua esperança de que tudo, absolutamente tudo, vem para o bem.
Ande com fé, meu amigo. Ela carregará o peso que agora está sobre seus ombros.
Ande com fé. A vida não ficará mais fácil por isso, mas você passará a ter certeza de que, no final, tudo terá valido a pena.

Fonte: Breno Isernhagen - www.semmaisdesculpas.com.br

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Não esquente!



Ansiedade é a preocupação vestida em esporte-fino. Se fosse uma reunião de negócios se chamaria “stress” e se vestiria com um terninho. Se fosse um baile de gala, se vestiria de “crise existencial”, de vestido longo, luvas e chapéu.
O grande problema da ansiedade é que, em geral, não sabemos que estamos ansiosos.
Como nossa mente é um mecanismo auto-organizador, quando ela nota que estamos ansiosos e não fazemos nada a respeito, ela imediatamente põe em ação algum mecanismo de fuga, como o cigarro, um drinque ou uma barra de chocolate. Em curto prazo, estes mecanismos acalmam a pessoa, mas acarretam uma série de outros problemas muito mais sérios, que irão resultar em maior ansiedade, por problemas ainda maiores, no futuro: um câncer, o alcoolismo ou obesidade.
Não posso tratar plenamente sua ansiedade, isto é trabalho para um bom psicólogo, mas posso dar duas boas dicas para acalmar os ânimos.
Primeiro: PARE, retire-se para um local o mais tranqüilo possível (pode ser o banheiro mesmo), sente-se confortavelmente, feche os olhos e comece a prestar atenção em sua respiração, procurando diminuir e compassar seu ritmo. Por que a respiração é importante? Porque você só respira no presente. Quando você se concentra em sua respiração, inconscientemente se concentra no tempo presente, parando de focar nos erros do passado ou nas incertezas do futuro.
Segundo: acostume-se a fazer afirmações positivas. É algo bobinho, mas funciona. No entanto, existe um segredo: use frases que o seu coração entenda, não apenas seu cérebro. Como assim? Quando você fala “eu sou um vencedor”, o resultado é sentido pelo seu intelecto, você pensa que é um vencedor. Quando você fala “eu me sinto como um vencedor”, você está falando de sentimentos. Ansiedade é um sentimento, portanto só pode ser anulada com um remédio emocional. Seu coração precisa se acalmar, para que seu cérebro continue a funcionar.
 
Então! Tá mais calminho? Então vista sua ansiedade com um biquíni, passe um protetor solar nela e deixe ela tomar um sol, senão ela vai acabar com as suas unhas.

Fonte: Breno Isernhagen

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Dicas de como se comportar quando se fica desempregado

Dando a volta por cima...



Espero que minha experiência nesta área possa ajudar àqueles que em algum momento passar pela situação de estar fora do mercado de trabalho, por qualquer motivo que seja.

Sempre acreditei que pessoas competentes e com vontade de trabalhar não ficam sem trabalho. Também tenho a certeza que as coisas só podem ser boas para os dois lados envolvidos.

Ocupava eu a posição de gerente administrativa e comercial de uma indústria de montagem de painéis elétricos em Contagem MG, já a 4 anos.

Fizemos uma excelente venda, porém o cliente só pagou 50% do que devia gerando com isso enormes problemas financeiros.

Reunimo-nos para decidir as medidas a tomar para passar por esta tempestade.

Precisávamos cortar despesas e o setor onde estas eram mais altas eram no setor de pessoal, naquele momento cabeças precisavam rolar.


Após diversas considerações, principalmente o fato de termos nossa capacidade de industrialização em seu melhor momento, com muitos pedidos em casa, cheguei à conclusão que a pessoa que deveria ser dispensada era eu mesma.

Não tinha medo disso e naquele momento era o melhor para a empresa. Vejam acima, no segundo parágrafo, algumas de minhas crenças.

Estava estruturando a empresa para sair e montar uma filial em Salvador, já que meu maior objetivo era voltar para a Bahia, terra que havia me apaixonado quando morei lá. Sem grana a empresa não poderia montar esta filial. Havia implantado a ISO 9001, um depto. de vendas e diversos processos que indicavam que a empresa poderia andar sem minha presença.

É claro que mesmo ganhando bem tinha certeza que dava lucro para a empresa, mas o meu era o maior salário e cortando este daria certa folga naquele momento crítico.

E aí o que fazer desempregada? Nem no sonho imaginava que isto iria acontecer... Vejam como foi isso:

Primeiro precisava assimilar a idéia, e isto teria que ser rápido;

Depois pensar no que tinha que pagar. Tinha diversos compromissos financeiros: duas filhas na faculdade (o ex-marido, pai das duas não ajudava em nada) estava fazendo MBA por conta própria no IBMEC, pagava prestação de carro, de apartamento, ajudava meus pais. Enfim as despesas eram grandes;

Estudar minha situação financeira para ver como cumprir com os compromissos. Não tinha carteira assinada, portanto nada de FGTS. Se eu estava saindo porque a empresa estava com problemas financeiros é claro que meu acerto foi com pagamentos parcelados.

Isto sem falar que boa parte de meu pagamento era comissão, e a parcela referente à venda que causou tudo isto foi por água abaixo na parte que não haviam recebido e eu já contava com tal comissão;


Planejar o que fazer naquele momento, como chegar ao futuro sem muita dor de cabeça;

Estruturar-me emocionalmente para ficar um tempo em casa. Tinha 47 anos, o que sabia iria dificultar minha entrada nas empresas.

Aí fiz o seguinte:

Tinha consciência que ficar em casa sem fazer nada iria com certeza abaixar meu moral e aumentar minhas preocupações.

Precisava urgentemente ter alguma atividade para o período sem emprego.


Como tinha planejado ser palestrante quando me aposentasse, ou seja, deixasse de trabalhar só para uma empresa por vez, pensei que estava na hora de planejar melhor tal atividade.

Rapidamente enxerguei que para conseguir ter sucesso nesta atividade precisava escrever um livro, o que me daria muito mais credibilidade.

Assim, durante dois meses procurei algumas pessoas que poderiam me ajudar a me recolocar no mercado e escrevi um livro. Foi uma experiência fantástica, ler livros novos, reler outros que achava importantes, pesquisar na internet e em bibliotecas.

Enfim, quando vi estava com um emprego arrumado e há dois meses trabalhando uma média de 16 horas por dia de domingo a domingo escrevendo o livro.

Deixo as seguintes dicas:

Primeiro não se deixe abater pelo desespero, as empresas não querem saber que você precisa delas, querem saber o que pode fazer por elas;

Saiba que empresas que só empregam pessoas que estão precisando de trabalho, aqueles coitadinhos, não querem pagar o que valem. Empresas que querem profissionais competentes e que pagam o que estes merecem, buscam no mercado aqueles que podem ajudá-las a crescer;

Jack Welch, ex CEO da GE e considerado o maior executivo do século passado, diz que 10 % dos profissionais nas organizações estão prontos para serem mandados embora. Então, se você foi dispensado porque a empresa precisava diminuir o número de colaboradores em algum momento de crise, provavelmente fazia parte destes 10%. As estrelas, aquelas que ajudam a empresa a ir para frente ficam.

Mesmo em momentos de crise. Analise onde errou. Veja como estava agindo nos últimos tempos em seu trabalho. Aprenda com seu erro!


Organizações precisam dar lucro e, portanto não podem ficar olhando o que você fez no passado, precisam ver quais são seus resultados no momento;

Monte uma estratégia para passar pelo processo de seleção. Alguns levam meses e o que mais tira pessoas de vagas onde com certeza poderiam ter sucesso é o lado psicológico e não o conhecimento. Você precisa falar a verdade, mas pode mudar a sua forma de ver esta verdade e assim conseguir reverter a situação. Evite ser um derrotado. Procure mostrar que aprendeu com o erro e cresceu como profissional. Seja um otimista e não um pessimista. Mostre o que pode fazer de bom pela empresa;

Converse com ex-colegas e ex-chefes, descubra onde errou e mude para melhor. Dizem que pau que nasce torto morre torto. Já que você não é pau pode mudar. Só não erra quem não faz!

Coloque o poder de seu subconsciente para trabalhar para você. Imagine como deve ser seu emprego ideal. Peça tudo que achar importante. Acredite, você merece! Só não peça pensando somente em você, porque negócios bons para um lado só, acabam.

Não fique lamentando o que passou, senão não vai enxergar as novas oportunidades que irão aparecer;

Peça ajuda. Procure as pessoas que você acha que pode te ajudar e ofereça trabalho. Mas tome cuidado porque ninguém irá te indicar se não confia em você.

E tenha sucesso!

Sonia Jordão

 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Fogo

Dedico este “registro” à uma menina que não teve culpa alguma, à uma menina que, como qualquer ser humano, não podia fugir de seu destino, uma menina que não sei o nome, e cujo rosto não me lembro.


O FOGO


O fogo a sua frente era como uma lantejoula em dias de festa. Aquela fogueira era como um espetáculo magnífico nunca antes apresentado. Ela a observava como se o fogo fosse um artista circense no picadeiro, um ator maravilhoso num palco impecável. Sua fogueira era um teatro de primeira linha.
Seu sorriso maroto num rosto sem maldades. Seus olhos brilhavam como estrelas em noites de luar. Noite esta, que marcaria sua vida. De repente num estalo, uma das madeiras que estavam por baixo cortava-se em cinzas, um susto seguido de gargalhadas.
Logo depois, mais um estalo de uma das madeiras verdes que desta vez estava por cima, e com os estalos, faiscas subiam aos céus como pequenas estrelas cadentes. Ela realmente, em seu intimo, ali parada, vendo cenas maravilhosas que só a natureza poderia um dia ter formulado, sentia que seus sonhos podiam sim se realizar.
Era noite de lua cheia, festa junina, enquanto a fogueira de São João ardia em brasas todos ainda dançavam ao som de músicas sertanejas.
Ela ainda continuava a admirar o que agora não passava de um amontoado de cinzas e algumas brasas. Pensava em como tinha sido lindo durante toda noite, a alegria dos que ali estiveram, dos que agora dançavam, e como tudo tem seu final.
Mas existia uma certeza: seus sonhos podiam se tornar realidade. Ela queria de volta a alegria em volta da fogueira, as risadas. Queria ver novamente aquele espetáculo.
Foi quando decidiu pegar alguns gravetos para queimar nas brasas ainda flamejantes. Saiu por toda parte procurando gravetos, papeis e lixos (saquinhos de salgadinhos, plásticos e etc.) que pudesse queimar. Aos poucos, algumas crianças resolveram lhe fazer companhia, e auxilia-la na busca de objetos flamivergentes. Cada vez que o fogo reacendia, reacendia as esperanças de que aquela festa não acabasse, e davam-lhe mais forças para continuar insistindo em não deixar as chamas se apagarem.
Cada criança que a ajudava era uma esperança a mais. Ela olhava para a chama que vinha buscar o papel e em seguida voltava a se esconder atrás das brasas como um bichinho de estimação com medo das crianças que o cercavam.
Enquanto ela olhava fixamente para as cinzas avermelhadas, alimentando seus sonhos, pensava em como era bom viver e poder apreciar pequenos momentos como aquele, podia passar ali a noite toda.
Um garoto trouxe um litro de álcool, disse que a fogueira duraria mais tempo e não importava o que jogassem depois na fogueira seria absorvido pelo fogo que estaria naquela “água milagrosa imortalizadora de sonhos” foi aí que o diabo se fez menino e, atentando-a lhe convenceu de que aquele era o remédio salvador que não deixaria seu bichinho faminto morrer, pois seria o melhor alimento de que o fogo poderia nutrir-se.
Nutrindo-se, o fogo, nutriria também suas esperanças de diversões, e brincadeiras, e risos, e tudo seria festa, e todos gostariam mais dela pelo fato dela não deixar a festa acabar.
E seus pais ser-lhe-iam gratos por aquilo e quando ela contasse a sua mãe, ela diria “Que bom filha, como você é esperta. Onde você aprendeu a brincar com fogo? Eu te amo!”.
Como era bom ter o carinho de sua mãe, pegou então na mão o vidro de álcool e com a sensação de quem faz algo por seus sonhos, derramou-o sobre as brasas, cinzas e carvões, a madeira... Seu bichinho de estimação tornara-se um faminto animal selvagem, um leão de fogo que consumia tudo pela frente e com sua enorme boca aberta engolia o liquido que escorria pelo ar.
Num salto aquele tigre flamejante sequioso queria beber de uma só vez aquele fluido de sabor vago como uma bebida onde o sabor completa sua descrição ao final do último gole.
Uma serpente incandescente passou pelo gargalo do frasco e como que pronta a dar o bote se armou, antes de atacar, encolheu-se numa implosão, uma tomada de ar fresco ou um último gole do mais saboroso vinho vindo direto das videiras mais belas do Éden, e como um peixe venenoso destes que se inflam quando se sentem ameaçados, inchou-se e rompendo os limites do vasilhame, quebrando-o em mil pedaços, como um grande amor corrompido quebra o coração de uma donzela pura e sem pecado, estilhaços de poesias, pedaços de céus, pequenos sóis caindo.
Na sua mente a mesma imagem acústica que via quando escutava uma música...

“Quando as estrelas começarem a cair / Me diz, me diz para onde a gente vai fugir?”

Nesta hora percebeu que não devia ter feito o que fez, que era errado e lembrou-se das palavras de sua mãe, “Não brinque com fogo, pois você é muito pequena.”; queria agora justificar-se com sua mãe, ela a amava mais que tudo na vida.
Percebeu que tudo tinha sido em vão e que nada precisava ser assim, que o mundo era uma grande nave passeando no espaço vida, que a vida é uma grande espera de coisa alguma e que o Tempo é o Senhor da Morte.
Percebeu que estava começando a pegar fogo por todo seu corpo e que o fogo a consumia como uma fera ingrata, percebeu que era tarde demais para pedir desculpas...
Viu toda a multidão correndo para salva-la, seu pai, sua mãe, como eram bonitos e bondosos, uma última olhada para sua casa.
Uma sensação leve, leve, não havia dor, somente um formigamento gostoso como uma massagem em seu corpinho.
Tudo foi se apagando, os sons foram silenciando-se e... e... nada...

“O resto é silêncio!”


(Érico Guimarães Guglielmo, 2004)

Citações:

1. RUSSO, R. [et al]. Angra dos reis. In: Que País é Este 1978 / 1987. Brasil: EMI – Odeon, 1987.
2. Shakespeare, W. Hamlet. São Paulo: Martin Claret, 2001.